09 de maio de 2011 03:03

Como você aprende?

Por Débora Carvalho

Dizem que cada pessoa tem um jeito peculiar de aprender algo com mais facilidade. Os psicólogos até separam em grupos: os auditivos, os visuais e os sinestésicos. Pode parecer fantasia à primeira vista. E também pode parecer injusto. Pensando bem, se as coisas são mesmo assim, significa que aquele conceito de que todos têm as mesmas oportunidades dentro da sala de aula, ou por serem irmãos criados juntos pelos mesmos pais, é papo furado. E é mesmo.

Tem gente que aprende o conteúdo só de ouvir a professora explicar, assiste uma palestra ou entrevista em um congresso ou na televisão, e é capaz de repassar todo o conteúdo e conceitos do preletor. Em casa, fica quietinho, mas de “antena ligada” na conversa dos adultos. E, de repente solta uma pérola que deixa os adultos desconcertados: “Mas mãe, você disse que a dona Maria era uma chata e metida e que não sabe nem fazer um bolo descente!”. 

Também tem aqueles responsáveis pelo surgimento do jargão “Entendeu ou quer que eu desenhe?” – Desenhe, por favor! Isso mesmo. Esses são os visuais, que precisam ver para entender como as coisas funcionam. Eles não conseguem se concentrar muito nos sons. São os que se lembram mais das cenas do que das falas dos personagens dos filmes ou novelas. Aprendem bem o que a professora escreve na lousa, mas não escutam o lembrete que “amanhã tem prova”, dado no final da aula. Em casa, mostra que vê o que ninguém acha que entende: “Mãe, eu já disse que eu não estou namorando!”; “Tá sim, eu vi o Paulinho segurando sua mão debaixo da mesa na hora do almoço!”. 

E tem os sinestésicos – os mais independentes e complicados. Primeiro, porque eles precisam sentir para aprender. Não adianta ficar explicando ou mostrando. Sem a prática, nada feito. Na sala de aula, a professora começa explicar o exercício de matemática e ele já está fazendo a tarefa para checar que está entendendo de verdade. Às vezes ele pensa que entendeu, mas na hora de fazer, descobre que não. Mas não faz mal. Por ser mais prático, e por não precisar necessariamente de um manual de instruções, ele consegue ser mais intuitivo e autodidata do que os que são predominantemente auditivos ou visuais. Em casa, ele surpreende a todos ao inventar uma receita de bolo, ou descobrindo maneiras mais práticas de se fazer alguma tarefa: – “Olha só, mãe. Assim é bem mais fácil do que do jeito que você falou.” É que o sinestésico não se limita ao que vê ou ouve. Ele sente. 

Ser professor ou pai não é tarefa fácil. Como oferecer oportunidades de aprendizado iguais aos alunos e filhos? Os auditivos precisam de um bom e honesto discurso. Os visuais precisam de boas ações. E os sinestésicos precisam sentir a verdade e a confiança, além de oportunidades para agir e fazer. 

Difícil. 

Porém, as coisas ficam ainda mais difíceis depois que a gente cresce. É que a gente acha que já sabe tudo. Só que para aprender é preciso não saber. E nesses tempos de constantes mudanças tecnológicas e de comportamento ? mais do que nunca vivemos em constante processo de aprendizado. Eu, por exemplo, vi surgir o BIP (pager), o celular tijolão, a máquina de datilografar eletrônica e o microcomputador doméstico. A linha telefônica era investimento, e se alugava pelo preço de uma casa. A TV por assinatura nasceu, e agora temos algumas opções de empresa para assinar. Hoje a gente compra um celular que tem tantas funções até então inimagináveis. Depois de um ano ainda descubro coisas novas no meu último modelo. Até os aparelhos domésticos entraram nessa onda e estão incorporando as ferramentas do celular, como agenda eletrônica e conferência a três. 

E a internet? Até o Google não para de inventar novas ferramentas. E chega a ser engraçado falar com alguém sobre essa ou aquela ferramenta que a pessoa desconhece, mesmo tendo computador e banda larga em casa. 

Brincar não é como antigamente. A gente tem que fazer curso pra aprender brincar com os filhos. Em tempos de videogame que lê os movimentos corporais para jogar, a gente ainda tem que aprender a ter mais noção corporal para acompanhar a garotada. E também tem que aprender a levar na manha o jeito que tiram o sarro da nossa cara, pois o comportamento também está mudando a cada geração. Quem está na casa dos 30 sabe bem do que estou falando. Quem é mais velho, então, nem se fala. 

A gente aprendeu a não ter preconceito, a não ser tão perfeccionista, a experimentar novos sabores de comida. A gente aprendeu a ler e escrever com lápis e livro, e também os livros digitais e a digitar até no celular. A gente aprendeu que não pode esconder a pedofilia nem a violência doméstica. Também aprendeu que psicólogo não é pra louco, e que massoterapia é uma profissão fantástica para combater o estresse. E depois de trocar o suco pelo refrigerante, aprendemos que o melhor mesmo é tomar suco natural, mas agora feito numa centrífuga que extrai todo o sumo da fruta. 

Nesse mundo em metamorfose, o melhor que temos a fazer é parar de achar que sabemos tudo, que somos realmente bons em algo, ou que temos que saber fazer tudo e sermos perfeitos. Até porque perfeição não é algo permanente. Ser perfeito é crescer sempre. É aprender constantemente. É ouvir, ver e sentir – de verdade. 

E para viver bem, a gente tem que aprender deletar algumas coisas que aprendemos para dar lugar ao novo, para continuar o processo de perfeição. Isso serve para a tecnologia, para a alimentação, para os relacionamentos, para a religião, a política, os estudos, o trabalho, a liderança, o subalterno, para todos, para tudo e para sempre. 

Como cantava Tim Maia: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia…”. E se tudo muda o tempo todo no mundo, a gente também tem que mudar. E isso não significa deixar de ser quem somos – muito pelo contrário, significa que temos que nos estabelecer sempre diante do novo mundo que nos surge a cada dia, justamente para não deixarmos de existir. E isso exige aprender.

Aprender não é fácil. Mas é necessário. E, como cada pessoa aprende de um jeito diferente, bom mesmo aprender a aprender, como diz o Içami Tiba. Quem aprende a aprender está feito! 

(Publicado originalmente no site Digestivo Cultural)

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