03 de dezembro de 2010 05:33

Egoísmo é coisa de criança

Por Débora Carvalho

Raquel Ehlers de Oliveira acredita que o mundo gira em torno de suas vontades. Ela só faz o que quer, quando quer, e ainda bate o pé quando não consegue algo. Muitas vezes Raquel deseja o que é dos outros; fica toda chateada e faz um “biquinho” lindo de desapontamento depois de perceber que sua “pirraça” não deu em nada. Raquel tem dois anos de idade.

Dalvina dos Anjos* ainda acredita que o mundo gira em torno de seu querer. Para conseguir o que quer, ela chega a mentir e criar muita confusão entre suas colegas. “A Dalvina achava que a gente sempre tinha que estar à sua disposição e ficava chateada quando eu não podia fazer algo que ela pedia. Mas, toda vez que eu precisei, ela nunca fazia nada por mim”, conta uma de suas colegas da faculdade.

“Depois de muito tempo eu descobri que ela me manipulava com suas mentiras – e a outras pessoas também. Ela se fazia de vítima o tempo todo. Eu gostava muito dela, mas seu egoísmo saturou a amizade.” *Dalvina (nome fictício para preservar a identidade) tem 27 anos de idade.

Religiosos classificam o egoísmo como o maior dos pecados, pois é a raiz de muitos outros, como inveja, cobiça, mentira, crimes, e todas as ações destrutivas que ele pode originar.

O teólogo Carlos Enoc Pollheim diz que é o egoísmo que torna as pessoas comuns em grosseiras no trânsito, mal educadas nas filas e calçadas, invejosas na escola, ciumentas no emprego, infiéis no casamento e desonestas no comércio. “Além disso, o egoísmo gera indiferença às necessidades dos outros”, diz.

Recentemente, os telejornais mostraram um cidadão ser atropelado numa das grandes avenidas de Nova York. Enquanto o atropelador fugia, a vítima se contorcia de dor e se debatia pedindo socorro. Algumas pessoas olhavam e passavam direto, outras paravam, olhavam e depois seguiam seu caminho.

Para Pollheim, essa cena se repete o tempo todo e Jesus já deu o alerta contra o egoísmo e a indiferença. Na parábola do bom Samaritano, um homem foi ferido em um assalto na estrada para a cidade de Jericó. Líderes religiosos passaram direto, sem oferecer ajuda. A vítima ficou ali até que foi socorrida por um Samaritano. “A parábola mostra que fé ou religião sem ação não significa nada. E isso vale tudo na vida. Não adianta saber o que deve ser feito. É preciso agir”, diz o pastor.

Não é só a pressa que impede a sociedade de fazer algo por alguém. Parece que um ato de bondade é sinônimo de levar prejuízo ou de ser bobo. Parece até que o egoísmo, que é a busca pela satisfação própria sem pensar no bem comum, é quem dita as atitudes, o comportamento e as palavras.

“O egoísmo sempre aparece para levar as pessoas a gastarem dinheiro sem planejamento, a comerem sem pensar na saúde, a agirem com falsidade no relacionamento pessoal e a agirem de maneira orgulhosa e arrogante”, comenta Pollheim. “É por isso que ele é um pecado, e não é nada fácil nos livrarmos dele.”

Maturidade

Segundo Stephen Covey, consultor de desenvolvimento humano (coaching) da FranklinCovey, o comportamento egoísta é sinal de falta de maturidade. Quanto mais egoísta é uma pessoa, mais dependente dos outros ela é, e infantil, assim como as crianças. A maturidade liberta a pessoa para agir e ser responsável por si mesma ao invés de achar que é uma vítima do mundo e que todos devem servi-la. A pessoa madura sabe quais são seus objetivos e como alcançá-los.

Mas, a maturidade não termina no degrau da independência. Em excesso, ela pode deixar a pessoa muito chata e isolada do resto do mundo. Depois de conquistar a independência, é hora de aprender a ser interdependente. Isso mesmo! Você escolhe depender dos outros e aceita que dependam de você. Isso só acontece quando a pessoa tem consciência do que é capaz de fazer sozinha, mas deseja ampliar os horizontes unindo o seu potencial com o de outras pessoas, para crescer ainda mais do que cresceria só.

Nesse estágio de maturidade, a pessoa aprende que nem sempre um ganha e o outro perde – todos podem dar e receber, sem se anular. Isto é o oposto do egoísmo. Quem é interdependente sabe ouvir e compreender o outro, e faz isso antes de tentar ser compreendido ou de impor a sua opinião ou vontade. O adulto maduro nunca ganha no grito – isso é conquista de criança! Parece simples, mas é nesse estágio que dá para perceber o quanto o ser humano tem uma grande tendência para o egoísmo e o quanto é difícil atingir a maturidade total e contínua.

O adulto maduro sabe unir idéias diferentes e criar uma terceira para alcançar os objetivos e integrar as pessoas com sinergia. É humilde para aceitar a opinião dos outros, ao mesmo tempo que é seguro de suas convicções. Nesta fase você estará pronto para o último estágio da maturidade: a liderança.

A grandeza das Sequóias


Segundo Hyrum Smith, vice presidente da consultoria Franklin Covey, liderar é transmitir tão claramente o valor das pessoas que elas possam vê-los em si mesmas. Jesus Cristo foi o maior exemplo de líder que buscou o melhor no ser humano. Covey completa: “Pessoas que aspiram a grandeza são as que fortalecem os outros enquanto permanecem fortalecidas e nunca param de crescer”. Ele chama isso de afinar o instrumento para a renovação interior. Cristo chamava isso de comunhão, relacionamento com Deus.

Para explicar como isso acontece, temos o exemplo das Sequóias. As maiores árvores do mundo vivem por milhares de anos e suportam mudanças drásticas de temperatura e tempestades. O segredo? Elas crescem perto umas das outras, e inter-laçam suas raízes. Assim, quando vem o vento forte, uma Sequóia fortalece a que está do lado enquanto é fortalecida. Sua semente pesa menos de 5 miligramas contendo uma árvore que pode chegar a ter mais de 80 metros de altura e 25 de perímetro. O seu crescimento até a maturidade representa um aumento do peso de 1.300.000 milhões de vezes. Elas são interdependentes e por isso são as árvores mais frondosas e de vida mais longa!

Personalidade versus caráter

Stephen Covey pesquisou 200 anos de literatura e descobriu que durante 150 anos o foco esteve no caráter, na ética e na compaixão. Depois, os escritores se dedicaram a falar em personalidade, na ética de forma superficial, sem interiorizar. Isso abriu caminho para a corrupção. “A ética do caráter tem raízes fortes que suportam terremotos”, diz Covey.

O psicólogo e também consultor Augusto César Maia, concorda. Para ele, personalidade é algo único como as digitais de uma pessoa, e não tem nada a ver com o caráter, que é algo mais sólido. “Um exemplo de caráter que vale à pena nos esforçarmos para ter um semelhante, é o caráter de Cristo – o maior líder que já andou entre nós”, diz. “O caráter de uma criança é formado até os sete anos de idade. Mas quando nos tornamos adultos e conscientes do que precisamos mudar em nossa vida, é possível trabalhar para moldar o nosso próprio caráter, do jeito que quisermos. E Deus é a principal força para nos ajudar nessa tarefa”, diz o psicólogo, citando um trecho da Bíblia:

“Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.” Filipenses 4:8.

O escritor Samuel Smiles afirma que os pensamentos se transformam em ações, as ações em hábitos, os hábitos formam o caráter e o caráter é o nosso destino. “Quanto mais cristãos, menos egoístas seremos”, conclui o doutor Maia.

Stephen Covey reuniu o seu conhecimento em alguns livros, nos quais aborda os sete hábitos de sucesso que descobriu. Há adaptações para famílias, adolescentes e até gestores.


Combinando visão, compreensão e prática, em sua obra, Covey detalha, de forma sistemática, quais as ferramentas necessárias para caminhar rumo à maturidade completa e contínua, através de sete hábitos que ele relacionou em suas pesquisas.

Os tais hábitos podem ser relacionados nos principais personagens da Bíblia, nos grandes líderes que lutaram pelo desenvolvimento humano e também em pessoas da atualidade.

No livro O 8º hábito, Covey fala sobre como conseguir paz de espírito e conquistar a confiança dos semelhantes: buscar as origens do comportamento humano no caráter das pessoas e em seus princípios, em vez de apenas sugerir posturas. Vale a pena conferir!

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