18 de janeiro de 2012 10:54

Não agradeço os tapas que levei!

Por Débora Carvalho

A recente lei da palmada, que visa coibir a agressão doméstica contra crianças, o espancamento e a violência, tem sido um tema amplamente discutido nas redes sociais. Me surpreendeu o número de pessoas que se manifestaram na internet agradecendo as “surras” que levaram de seus pais, alegando que foi melhor apanhar deles do que da polícia. 

Eu realmente não consegui entender tais manifestações. Será que são sinceras, ou são simplesmente uma “desculpa” para que esses filhos que apanharam prossigam batendo em seus próprios filhos? 

Eu não agradeço as palmadas, nem as chineladas, nem as cintadas, nem os cascudos, nem os castigos que recebi, tendo que ficar de joelhos à beira da cama até segunda ordem. Não me tornaram uma pessoa melhor. Não me deram nada de bom. Eu não teria apanhado da polícia se tivesse passado a infância sem apanhar. 

Que pecados uma criança comete para ter que apanhar? 

Deixar cair o copo de vidro no chão? Derramar comida? Não querer emprestar o brinquedo? Mexer no estojo de maquiagem da mãe? Rabiscar a parede? Rasgar a revista do papai? Quebrar a corda do violão? Fazer xixi na cama? Ficar nervosa e jogar o brinquedo longe? Não querer tomar banho na hora que a mamãe quer sair – naquele horário totalmente fora da rotina da criança? Não comer toda a comida do prato? Cuspir da boca um alimento que causou repulsa ao seu paladar e insistir em não querer comer aquilo? Não gostar da cara de certa comida e não experimentar nem apanhando? Derramar comida na roupa nova? Querer comer sozinha, e com as mãos ao invés da colher? Chorar de sono? 

E precisa apanhar por causa disso? 

Em meu universo, nunca vi criança apanhar por algo diferente. Quando criança apanha é por causa dessas picuinhas que irritam os adultos que se esquecem que também foram crianças, que esquecem que as crianças estão em fase de desenvolvimento e que eles devem ser o exemplo, que esquecem que eles também não gostavam de sentir dor. Sentiam-se injustiçados. Mas, com o tempo, passaram a não ligar mais para ela. “Vou apanhar mesmo, depois a dor passa!” – É o que acontece com muitas crianças. Um dos meus irmãos falava isso na cara de pau para meus pais. E quando descobriram que ele não ligava, inventaram de colocar de castigo ajoelhado ou sentado, e ele pedia para trocar: “me bate o quanto você quiser, mas não me põe de castigo!” suplicava ele. 
Detalhe: hoje ele também bate, ameaça, grita… coloca seus filhos de castigo… mas ele sabe muito bem (já conversamos a respeito), que bater não educa e que ele precisa lutar contra esse impulso que o leva a castigar com dor quando é desobedecido. 

Quando a pessoa tem boa índole, o diálogo resolve. Aprender a resolver as coisas conversando é a melhor e mais difícil dádiva que os pais podem oferecer aos filhos. Normalmente, quem cresceu apanhando, acha que é isso que educa. 

Bater em criança é anti-bíblico

Muitos religiosos recorrem à cultura bíblica, pois um dos versos de Salomão diz: “Fustiga a criança com a vara e ela te dará sossego.” Claro que dará. Até seu vizinho barulhento te dará sossego se você der uma surra nele. Mas trata-se de uma dica muito egoísta. E não é porque Salomão pensava ou agia dessa maneira que também devemos agir. Mesmo para os seguidores da Bíblia é importante ter a coerência de saber que nem tudo o que está escrito ali é para ser seguido. Só porque algum personagem bíblico fez ou pensou de tal forma não significa que é pra todo crente fazer igual. Pelo contrário. Muita coisa é para não fazer. A Bíblia também apresenta mocinhos e vilões. E tem mais, seria impossível viver ao pé da letra tudo o que está escrito na Bíblia – quem tenta fazer isso leva uma vida muito incoerente e ridícula. “Fustigar com vara” foi um pensamento de Salomão, opinião do rei hebreu, filho de Davi, e não uma ordem divina – dentro do contexto bíblico adotado por muitos como filosofia de vida que foi incorporada à cultura popular. 

Em outro lugar, Paulo diz aos pais que eles não devem provocar a ira em seus filhos, mas discipliná-los conforme a admoestação de Deus. Tem coisa que provoque mais ira em alguém do que levar uma surra? E, juntando o quebra-cabeças desse contexto, bater em criança é algo totalmente anti-bíblico, pois Deus disciplina da seguinte maneira: “Não por força, nem por violência, mas pelo meu espírito!”. E o espírito de Deus é amor. E o amor “não se conduz de maneira inconveniente, não se alegra com a injustiça, e tudo suporta!” 

Então, caros pais que gostam de bater, e rei Salomão, no mundo de hoje não existe mais lugar para bater numa criança só para ter sossego, deixando-a acuada e com medo. Isso tornou-se crime e sinônimo de pai que tem preguiça de educar.

E quanto aos preguiçosos que dizem seguir a cultura bíblica, mas nem se dão ao trabalho de pesquisar direito o significado, que tal parar de usar a Bíblia para defender os próprios pecados e defeitos? Isso não cola. É mentira! E, segundo a Bíblia, mentir é pecado, lembra? 

Não me admira que muita criança criada nesse ambiente preguiçoso fique com raiva de Deus depois que cresce, pois esses pais ignorantes apresentam a elas um estilo de vida totalmente incoerente. E o jovem fica traumatizado e passa a acreditar que aquele mau comportamento dos adultos da sua família foi culpa da religião, de Deus e da Bíblia. É por isso que eu acho que gente ignorante não deve ler a Bíblia. É um livro perigoso demais para quem leva uma vida incoerente, sem nexo, sem princípios sinceros, e ainda tem preguiça de estudar e se informar. Tem maluco que abre a Bíblia em uma passagem que conta a história de um suicida, vai lá e faz igual, achando que Deus quer que ele tire a própria vida.

Mas, pelo que pude aprender até agora, em minha curta vida, o que entendi é que Deus existindo ou não, e sendo a Bíblia um livro sagrado ou não, história ou conto-de-fadas, a Bíblia tem coerência dentro do seu universo, mesmo dentro de toda a fantasia que ela possa representar. Incoerentes são as pessoas que utilizam esse livro para seus próprios interesses. Seja para bater numa criança, para originar uma guerra ou para discriminar alguém. Assim como eu não posso colocar comida no tanque de gasolina do carro esperando que ele ande, nem beber gasolina esperando alimentar o meu corpo, não posso interpretar nenhum texto – seja da Bíblia ou seja o roteiro de um filme de ficção científica – fora do contexto do seu próprio universo. 

Em minha aprendizagem, o fato é que eu não mudei nenhum comportamento por causa das palmadas. Não parei de fazer o que achavam que não devia quando achava que meus pais é que estavam errados. Não mudei de opinião. E fui uma boa garota. Até melhor do que deveria ter sido. Apanhei pouco. Dá pra contar nos dedos das mãos. Mas me lembro da cada uma das “surras” – as leves e as mais pesadas, e de todo o sentimento que espremia meu coração e me fazia ter vontade de devolver. Também me lembro que uma simples conversa e compreensão seriam suficientes. Eu estava em fase de desenvolvimento, aprendendo a viver. Era réu primário – se aquilo fosse crime. 

Eu entendo que a Lei da Palmada, na verdade, tem o objetivo de coibir espancamentos que sempre começam com um tapa. Em poder de quem tem tendência à violência, o tapa pode dar origem a uma avalanche muito violenta. Quem pode ser corrigido com um tapa, também pode ser corrigido com uma conversa ou com o cantinho da disciplina “à lá reallity show Supernanny”. O tapa é totalmente desnecessário. E perigoso. Assim como gritos, berros, e outras coisas que só servem para deseducar. Prova disso é que a geração que cresceu apanhando não fez diminuir a criminalidade. O que educa é estudo, informação, bom exemplo. 

Não adianta justificar dizendo que palmada é repreensão, pois vem acompanhada de agressão física. Repreensão, sim. Até os adultos precisam disso. Agressão, não. Nem bandido pode apanhar da polícia – é crime também. 

A repreensão infantil jamais deve vir acompanhada da agressão, seja física, emocional ou moral. Isso desvirtua os relacionamentos afetivos. Confunde. faz achar que quando amamos e somos amados devemos aceitar a violência e a pessoa que amamos deve também aceitar nossos impulsos de fúria. 

A palmada ensina que devemos temer quem é mais forte, o mais poderoso. Dá origem ao bullying infantil na escola, com certeza. O mais forte deve subjugar o mais fraco, que deve deixar-se subjugar. Tá bom. Os religiosos equivocados vão dizer que na Bíblia está escrito que “Deus repreende e castiga a quem ama“, e acha que quem ama o filho, bate – alegando ainda que dói mais no coração do pai/mãe do que no filho. Mas quem sabe ler também sabe que repreender e castigar não é sinônimo de bater. 

Apanhar também faz a criança perder o interesse pela atividade que estava fazendo no momento em que apanhou – e nem sempre aquilo é o motivo de ter apanhado. Às vezes o pai descobre a nota vermelha e vem soltando os cachorros enquanto a criança está tocando violão, por exemplo. 

Apanhar ensina que agressão física é uma atitude normal quando o mais fraco nos desobedece – e isso soa meio psicopático, não é? Não te lembra algum filme ou episódio de CSI, Law & Order… 

Deus mudou a estratégia da força bruta faz tempo!

Bater também ensina que o que resolve as coisas é a força bruta, e não o diálogo. Bater é algo originado nas guerras, naquele tempo em que até mesmo Deus mostrava seu poder em favor dos Hebreus fazendo com que ganhassem as batalhas contra os povos inimigos. Esta era a única linguagem da época. O Deus forte era o que ganhava as batalhas. Hoje isso não é mais necessário. O contexto mundial mudou.

Não é mais a lei da força física, e sim, da intelectual, o podr do argumento e do exemplo. Quem apanha aprende que de quem se espera amor também se deve esperar agressão. É isso o que um pai deseja para sua filha? Que ela aceite apanhar do marido? É isso o que a mãe quer ensinar ao filho? Que ele bata na esposa? E vice-versa, todo mundo apanhando, vivendo entre “tapas e beijos?” 

Então, vamos evoluir assim como Deus evoluiu e não se manifesta mais através de guerras. Não é o que dizem os doutores em teologia? Então. Vamos evoluir e fazer a coisa certa. Educar pelo exemplo. Educar com amor. “Ensinar a criança o caminho em que ela deve andar”, e não o contrário disso. 

Até hoje eu me pego fazendo coisas que não gostaria, mas que faço inconscientemente – por causa da reprodução do comportamento que vi a vida toda. E sei que meus pais fizeram o mesmo. E meus avós fizeram o mesmo. Muita coisa consegui mudar antes da maternidade, e foi por isso que resolvi engravidar somente depois que completei 30 anos, para conseguir ser um exemplo positivo. É muito ruim e difícil romper esse ciclo de mau exemplo. Mas não é impossível. Milagres acontecem quando a gente acredita. De algum maneira, a gente consegue superar todos os nos de mau exemplo. 

É muito mais fácil e natural educar com palmada, cinta e berro – ou melhor, seria, se isso educasse. Educar dá trabalho. Exige preparo, conhecimento, leitura, informação, humildade e aprendizado constante. A gente se prepara a vida toda para ter uma profissão. Se informa, faz Ensino Médio, Vestibular, passa anos na faculdade, às vezes trabalha duro para pagar os estudos… e os filhos? Não merecem que nos preparemos também para a função? Com preparo, vamos saber exatamente como agir, e se errarmos, vamos conseguir corrigir da próxima vez… até porque, mais cedo ou mais tarde, as crianças deixam de ser crianças e descobrem que os adultos erram muito mais do que elas. E essa frustração dói muito. Então, faça seu filho ser uma pessoa humana, que erra e que acerta, assim como você. 

E isso nada tem a ver com religião, nem com ordem divina, nem com superioridade ou autoridade de pai. Tem a ver com ser gente. Gente. Aliás, é o poder da palavra, é a comunicação que nos faz gente. Não a luta física. Macaco luta, cachorro luta, rinoceronte luta… e pessoas conversam. Ou, deveriam. 

*Texto publicado originalmente no Digestivo Cultural.

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