08 de outubro de 2011 10:23

Vaidade, pra que te quero?

Por Débora Carvalho

Vaidade, vaidade. Tudo é vaidade – diz o pregador. Mas vaidade seria roupa nova, bonita e na moda? Seria maquiagem para realçar a beleza? Seria um corte novo de cabelo ou mudar a sua cor? Esconder os fios brancos? Seriam os acessórios – cintos, fivelas, bijuterias e gravata? Ou seria o carro zero, a decoração da casa? O cardápio do almoço? Tudo isso são coisas passageiras, nada dura para sempre. E se durar, as coisas ficam e a gente se vai.

O pregador diz que “tudo” é vaidade. Tudo. E não é que ele tem razão? Mas quem foi que disse que a vaidade é uma coisa ruim? Pois é. Mas tem muita gente que acha que sim. Eu cresci ouvindo um discurso vazio que afirmava que a vaidade era apenas coisa de mulher, destacando maquiagem (para mudar o que Deus fez), roupas (moda) e acessórios (coisa de pagão). E só isso era vaidade – e vaidade era pecado.

Mas lendo a Bíblia nesta manhã, me deparei com um conceito muito diferente. E o novo discurso sobre vaidade me fez admirar ainda mais o rei Salomão – filho de Davi – aquele menino que matou o gigante Golias. Eclesiastes capítulo dois. É curtinho. Você pode acompanhar em sua própria Bíblia ou clicar no link da Bíblia Online aqui.

Por que não enxerguei isso antes?

Assim como o coração de todos nós, mortais, o de Salomão  – tido como o homem mais sábio que já houve na terra, sem nenhum com tanta sabedoria nem antes nem depois, também queria sentir prazer e alegria na vida. Ele queria dar risada e sentir todo o bem-estar que a endorfina proporciona no corpo humano.

Mas algumas pessoas dizem que alegria demais é pecado, falta de compostura e de reverência. Está doido? De que serve esta alegria toda? – É vaidade. Sim, Salomão estava certo. A alegria passa. Mas a tristeza também passa. Então, é bom se dar ao luxo de viver algumas alegrias. Em outro livro Salomão disse que “o sorriso nos lábios faz o rosto ficar bonito, mas o coração abatido faz secar os ossos.” Logo, estar alegre e sorrindo só pode ser algo muito positivo – ainda que passe.

Então, Salomão resolveu experimentar as reações químicas do vinho, e entregar-se à loucura de ser humano. Ele queria saber qual era a melhor coisa que um homem poderia fazer nessa terra. Em sua vaidade louca, ele construiu obras magníficas, casas e plantou vinhas. Fez hortas e jardins com tudo o que tinha direito. (E só de ler o relato, morro de inveja branca!) Árvores com toda a espécie de fruto, empregados aos montes. E ainda acumulou tesouros de prata, ouro e pedras preciosas. 

Cultura também foi uma das vaidades que Salomão usufruiu. “Provi-me de cantores e cantoras, e das delícias dos filhos dos homens; e de instrumentos de música de toda a espécie.” E olha que naquela época não tinha CD, DVD, nem como baixar nada na internet. Então, todos os shows eram ao vivo – e particulares. Já pensou poder dizer: Celine Dion, por favor, agora gostaria que você cantasse… e escolher o repertório conforme sua vontade, como se tivesse um controle remoto na sua mão. Pois é. Salomão podia.

Muito chato esse Salomão. “E tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o meu coração de alegria alguma”.  Quem é que não gostaria de poder se dar ao luxo de fazer o mesmo? Ah, não. Fazer tudo o que se tem vontade é uma coisa muito chata mesmo. Entediante! Oh, como eu queria um tédio desse. 

Aí o cara vem e diz que o seu coração se alegrou por todo o seu trabalho. É, gente. Ele também trabalhava. Parece que não ficava esperando as coisas caírem do céu. Além de trabalhar, ele estudava muito. Pesquisava, observava. Não ficava esperando o conhecimento aparecer do nada. Nem tinha televisão, internet e o tanto de livros que temos hoje – onde podemos aprender tantas coisas sem precisar dar uma de cientista. Então, Salomão olhou para tudo o que suas mãos haviam produzido, e o trabalho que realizara com seus próprios esforços, e descobriu que tudo quando havia feito era vaidade. Trabalho é vaidade desde quando, Salomão? Desde quando os frutos do trabalho também passam, viram fumaça. Então trabalhar demais, investir, mudar de classe social… isso também é vaidade – pois é passageiro, pode acabar. A casa nova pode pegar fogo, o carro zero pode dar perda total em um acidente, o dinheiro na poupança pode ser confiscado pelo governo, a empresa pode sofrer um golpe do tesoureiro e você ficar sem nada. Então, tudo isso também é vaidade.

Tudo isso é aflição de espírito porque nada disso tem proveito algum debaixo do sol. Calma aí, Salomão? O senhor pirou? Como assim não há proveito algum debaixo do sol?

Mas o sábio tem razão. E é por isso que até mesmo o trabalho ele chama de vaidade. Vaidade é algo que passa, que não dura pra sempre. As construções, os jardins, as hortas, a música… tudo isso não vive para sempre debaixo do sol. Tudo passa. Acaba um dia. A gente se “mata” para conquistar algo que não possui de verdade. Não possui, porque ou a coisa acaba, se deteriora, ou é você que acaba e deixa sua conquista para outro usufruir.

Salomão se deu conta de que toda a riqueza e conhecimento que ele havia acumulado não eram dele para sempre. Assim como o dinheiro que eu ganho escrevendo – já que vivo de palavras. Escrevo, escrevo. Vendo o texto. O dinheiro chega e logo vai embora. Roupa, sapato, prestação do carro, aluguel. A roupa fica velha ou enjoo dela e passo pra frente. Mas e as horas que passei trabalhando para conquistar o dinheiro que foi gasto naquela peça? Pois é – já foi. Vaidade. Pra que comprar roupa nova? Pra me sentir bem e usufruir do esforço do meu trabalho, ora bolas. Dá licença que o dinheiro é meu, fruto do meu trabalho, ok?

Salomão descobriu o óbvio: o louco e o sábio têm o mesmo fim. O sol brilha para todos. O ar enche o pulmão de todos. O analfabeto e o doutor. Então, para que buscar a sabedoria? Para que estudar tanto, ler tanto, se informar tanto? É tudo vaidade. O conhecimento também passa. Acaba quando eu acabar. E ele pega pesado. Diz que o sábio não será mais lembrado do que o tolo no futuro. Tudo bem, naquela época não existiam vídeos digitais salvos na internet. Mesmo assim, você não estará lá para saber se ainda lembram que foi você quem deixou aquele legado imortal.  

Aí ele ficou com raiva e odiou esta vida. Afinal, tudo é vaidade e aflição de espírito. E pior, tudo o que Salomão havia realizado ele teria que deixar ao homem que viesse depois dele e ele não sabia se o herdeiro seria sábio ou tolo. Mas era certo que tomaria a posse de tudo o que ele havia construído com tanta sabedoria.

Diferente de mim, Salomão ficou desesperado quando se deu conta que trabalhou além das próprias necessidades. Se bem que eu adoraria ser herdeira dele. Quem não gostaria?

Já ouviu a expressão: “filhinho de papai que não sabe dar valor ao dinheiro?” Pois é. Vi muitos assim na faculdade. Matando aula, trocando de curso o tempo todo. Afinal, o papai é empresário rico que só trabalha. E o filho só gasta tudo sem responsabilidade. Também há casos de fortunas que somem no vento depois que a herança cai nas mãos dos filhos. Salomão diz que isso é vaidade e grande mal – a herança. Eu costumo dizer que tem gente que não merece a conta bancária que tem. 

E quem tanto trabalha pra acumular riqueza, ganha outros problemas: trabalho, aflição, ocupação, preocupação.  Não consegue desligar nem de noite. Não relaxa nunca. Até sonhando o trabalho aparece. Isso quando não encontra respostas para problemas do trabalho durante o sonho.

Tudo bem, tudo bem. Mas quem foi que disse que é errado trabalhar arduamente para usufruir o fruto do seu trabalho como bem quiser? “Não há nada melhor para o homem do que comer e beber, e fazer com que sua alma goze do bem do seu trabalho. Também vi que isto vem da mão de Deus.”  É isso mesmo. Isso vem da mão de Deus. É uma aflição seguida de prazer que é um presente de Deus para nós. Ufa! Que susto, senhor Salomão!

Mas vai ser metido e vaidoso assim lá na China. Olha só o que o cara esfrega na nossa cara: “Pois quem pode comer, ou quem pode gozar melhor do que eu?” – É, quem? Fazer o quê? Ele pode. Esse tipo de coisa é pra quem pode, não pra quem quer.

“Porque ao homem que é bom diante dele, dá Deus sabedoria e conhecimento e alegria; mas ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte, e amontoe, para dá-lo ao que é bom perante Deus.”

Esse último verso me lembrou um bazar que aconteceu no Jóquei Clube, em São Paulo, com os bens do Abadia, um traficante que havia até mudado o rosto com cirurgia plástica, e que fora preso. Roupas caríssimas, obras de arte, eletrodomésticos, sapatos, DVDs… tudo foi vendido a preços mais acessíveis e a renda foi doada para a caridade.

Seja como for, a gente vai e a riqueza fica. Mas isso não significa que seja errado trabalhar por um sonho de construir coisas que tornem a minha vida ou a de outros mais confortável. Não há nada de pecado nisso – como diz o discurso de alguns. Desde que você tenha consciência de que isso é passageiro, que isso é apenas o que você tem e não o que você é, está tudo certo.

Você pode sim, usufruir todo o conforto conquistado pelo seu trabalho. Pode sim, investir o seu tempo acumulando conhecimento. Pode sim, criar uma empresa, um negócio, e enriquecer. Que mal há nisso? Nenhum. Desde que você não se apegue a isso mais do que ao verdadeiro tesouro da vida – que é viver com sabedoria – um tesouro muito maior, que a traça e a ferrugem não corroem, nem mesmo o tempo. “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” – e temor não é sinônimo de medo, significa respeito, reconhecimento.

Então, chega de pensar pequeno. Chega de preguiça. Vamos arregaçar as mangas e trabalhar bastante, para termos o prazer de usufruir o fruto do nosso trabalho – um prazer que Deus concedeu a nós, humanos. E chega de inveja no carrão do vizinho, na empresa do tio, na fazenda do avô, no marido rico da prima, na viagem do colega da faculdade. A vida é assim mesmo. Alguns usufruem o fruto do próprio esforço, outros usufruem dos frutos do esforço do outro. E se você não se encaixa no segundo grupo, entre no primeiro, ora bolas. É vaidade? É. Passa? Passa. Mas é ela que move o mundo, deixando as mulheres mais belas e confiantes, os homens mais cheirosos e menos inseguros, as cidades mais bonitas. E mais, ela até ajuda a prolongar a vida de muita gente – quando o sábio médico aplicada sua vaidade em pesquisas na medicina patrocinado por outro empresário rico e vaidoso resolve deixar o seu legado para a sociedade.

Vaidade, vaidade. Pra que te quero? Não sei exatamente. Mas te quero, e te quero muito.

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